domingo, 23 de janeiro de 2011

DA MACHEZA E DA COZINHA

DA MACHEZA E DA COZINHA




Dia desses, eu dirigia por uma rua razoavelmente movimentada. De repente, avistei um carro que estava parado no meio da rua, sem dar sinal. Pressupus que quisesse estacionar. Então, tentando ser educada, achei um espacinho e o ultrapassei vagarosamente pois, se me mantivesse atrás do mesmo, ele jamais seria estacionado.

Eis que o vidro do referido veículo se abre. Surge na janela um distinto, elegante e educado senhor que brada delicadamente:

- Volta pra cozinha, ô!

O espírito da ira apossou-se de mim, honestamente. Não por insinuar que eu dirijo mal, ou coisa assim, que isso não me ofende. Mas por ser preconceituoso, machista e me mandar para a cozinha. Cozinha, distinto senhor machão, há muito tempo já não é exclusividade das mulheres, a não ser que o senhor não viva no mesmo século que eu. Ademais, as mulheres ocupam posições iguais ou superiores aos homens, só os mais ignorantes ou aqueles que sentem sua macheza ameaçada ainda não conseguem conviver com isso.

A propósito, se eu fosse (e agradeço a Deus por não o ser) a bela e jovem esposa que acompanhava esse simpático e agradável indivíduo, e testemunhasse uma agressão à mulher, em especial a essa máxima arcaica que ouvi, deixá-lo-ia, com muito prazer, sem comidinha pronta. Sim, porque ele precisa perceber que, se a mulher atingiu posições antes ocupadas exclusivamente por homens, o homem também precisa compreender que alguém precisa preencher o espaço deixado pela mulher. Então, amigo, vá você para a cozinha, dê jeito de aprender a fazer sua própria comidinha, pois pessoas como você, mais cedo ou mais tarde, tendem a ser abandonadas por suas belas e dedicadas esposas por manifestarem tanto preconceito.

Em tempos onde os conceitos se modernizam a cada dia, é um ultraje ouvir alguns homens (e ainda algumas mulheres) bradarem pela divisão entre “coisas de homem” e “coisas de mulher”. Somos todos iguais, temos as mesmas capacidades, podemos exercer as mesmas funções e gostar das mesmas coisas, independente de gênero. Foi-se o tempo em que a cozinha e os serviços domésticos eram “coisas para mulheres” e trabalhar fora para colocar comida na mesa e assistir ao futebol bebendo uma cervejinha eram “coisas para homens”.

Em tempos em que se aceitam tantas coisas novas, realmente não dá para acreditar que a mulher que, pelo contrário, não é nenhuma novidade, ainda seja tachada por alguns membros da sociedade como subserviente. Na verdade, enquanto as mulheres ainda se permitirem ser colocadas como objetos (na visão de muitos, quando o lugar delas não é na cozinha, é para serem “mulheres-fruta”), isso nunca vai mudar. Não quero dizer que as mulheres tenham que ser iguais aos homens, que não devam ser femininas. Só acho que as mulheres são particulares demais, grandes demais, fortes demais para serem diminuídas a uma cozinha ou a uma sessão de fotos sensuais e excitantes.

4 comentários:

A. Reiffer disse...

Muito bom, Paula, disseste tudo. Tem gente que ainda segue aquele ditado: "mulher no volante, perigo constante." Já eu prefiro seguir este: "Com mulher na direção é constante a emoção". hehehe! Capaz, tô brincando. Eu sei que tu dirige bem. A Liziane também dirige. Abraços!

Anônimo disse...

Ana Paula! Adorei!!! Todas as tuas crônicas são ótimas, porém esta em especial é o máximo! Tudo de bom!
muitos bjinhos.

Tere disse...

Ana Paula! Adorei!!! Todas as tuas crônicas são ótimas, porém esta em especial é o máximo! Tudo de bom!
muitos bjinhos.

mara disse...

Ana, esse texto está demais, pelo flagrante real demais e pela delicadeza que usas para colocar a
"macheza"no chão. Pena que gente desse tipo, podemos considerar analfabetos funcionais, e certamente não lerão tua magnífica crônica ou seus neurônios não permitirão entendê-la. Bjo.
Mara Vaz